Eu quero aprender a ler.

Eu tinha seis anos e uma única ambição: aprender a ler. Depois das histórias dos três cabritinhos e da onça Gabola, meus olhos ganharam o mundo e não parei mais, se tornou minha paixão, meu vício. E o melhor é que todos os dias, aprendo a ler. Há sempre a surpresa incrível de reler um livro que você já conhecia há anos e descobrir um texto totalmente novo, porque o livro muda quando você já não é mais o mesmo.







segunda-feira, 27 de junho de 2011

Livros de Infância

Qual o sabor da sua infância? A minha tem gostinho de amora colhida no pé, rocambole de doce de leite da mamãe e de livros adocicados e ilustrados. Tem gente que sente o cheiro de uma broa de fubá e lembra da meninice. Já eu adoro o cheiro das páginas grossas e amareladas de livros com capas duras que fazem um som abafado quando se fecham. Basta sentir esse aroma, numa biblioteca ou nos meus velhos livros, para imediatamente voltar a ter dez anos de idade.

Quando criança, só tinha acesso à esquálida biblioteca da escola pública onde estudava. Era uma sala raramente visitada e nunca para se escolher livros à vontade. Aliás, leitura em escola nunca é oferecida como uma das formas de cultura mais abundantes já criadas pelo homem. Existem livros de todo jeito para você ler o que achar mais gostoso: aventura, romance, poesia... Estilos variados, autores variados, mil e um títulos no mundo todo para você escolher. Mas na escola, todos têm que ler o mesmo livro, no mesmo tempo e responder às mesmas perguntas estúpidas, como se houvesse certo e errado na maneira como você sente um livro.

Então, na minha deliciosa lista de livros que minha escola nunca me mandou ler, estão:
  • As Meninas Exemplares, Condessa de Ségur;
  • O Pequeno Lorde; Frances Hodgson Burnett;
  • O Menino do Dedo Verde, Maurice Druon.

Esses livros mostram um universo de crianças enfrentando dificuldades na vida com uma determinação inabalável! Muito legal. É um tipo de livro que vem sumindo das prateleiras. Quando fiquei grávida, fui tomada dessa compreensão e comecei a buscar os livros que haviam me encantado na infância para me assegurar de que minha filha os conheceria. Laura nem havia saído da minha barriga mas já tinha alguns livros comprados para ela, inclusive mais um volume da coleção de Laura Ingals Wilder, "Uma Casa na Colina". Outra ótima pedida é "A Fada que tinha Ideias" de Fernanda Lopes de Almeida onde a fadinha Clara Luz faz um delicioso bolo recheado com um cometa para fazer crescer.

Em "As Meninas Exemplares" e "O Pequeno Lorde", eu ficava emocionada en ver como as crianças eram maravilhosas, delicadas e corretas. Ficava horas fantasiando que eu também seria boazinha a partir daquele exato momento. Seria doce e cândida como elas. Bom, claro que no final do dia eu já havia me esquecido completamente da promessa, mas como sempre voltava a reler o mesmo livro, pelo menos posso dizer que passei a infância toda tentando ser uma boa menina. Resumindo, eu era uma boba, mas uma boba com cultura!

"O Menino do Dedo Verde", esse nunca vai desaparecer das livrarias. É realmente um livro muito bonito. Me lembro de ficar tentanto imaginar como soaria a frase: "Tstu não é como todo muuunnnddooo..." na voz do apito da fábrica. Esse livro foi mais um que minha irmã Cláudia sempre lia para mim, como leu também o "Mágico de Oz" de Lyman Frank Baum, uma edição com uma belíssima capa ilustrada. Fiquei emocionada em conseguir comprar em um sebo um volume com a capa igualzinha!  Aliás, em todos esses livros, as ilustrações ocupavam um lugar muito importante para mim, quase tanto quanto a própria história. Ficava louca para chegar logo na página que trazia a ilustração de alguma cena. O dia em que percebi que minha infância estava acabando, foi a primeira vez em que escolhi um livro sem me preocupar em verificar antes se havia figuras nele ou não. Me senti muito adulta naquele dia. Hoje, revendo as ilustrações, sinto o contrário, uma vontade louca de me deliciar de novo com todos esses livros de criança.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Mergulhando na Lagoa Prateada

No tempo em que eu tinha seis anos, as crianças da minha idade não sabiam ler, era considerado cedo demais para se ensinar. Mas aprender a ler era meu maior desejo. Às vezes, enquanto eu brincava, ouvia um sussurrar gostoso de palavras, arrulhando como assas de pássaros. Era minha irmã mais velha lendo no quarto. Ela tinha essa mania de ler pronunciando as palavras baixinho, como fazendo uma música do texto. Aquilo me fascinava. O que havia ali naquelas páginas para causar tanto prazer à minha irmã que fazia com que ela ficasse sentada por horas com o livro no colo, sussurrando o texto para si mesma? Eu queria mergulhar naquele mundo mágico também.

Um dia, de tanto insistir, ela começou a ler seu livro para mim. Era um volume da coleção de histórias da vida de Laura Ingalls, escrita pela própria, uma mulher que viveu no tempo da conquista do Oeste dos Estados Unidos. O livro chamava-se Às Margens da Lagoa Prateada. Na capa, uma menina de vestido vermelho montava um cavalo sem sela, agarrando-se desesperadamente às suas crinas enquanto o animal parecia estar em disparada pela campina. Ao fundo, outra menina, as mãos na cintura, parecia se divertir com a aventura. Eu olhava fixamente para a capa enquanto minha irmã ia descortinando a história daquela família pobre mas muito unida e cheia de sentimentos nobres que vivia a dura vida de uma época distante. O pai e a mãe eram muito amorosos e sua docilidade parecia passar naturalmente para as filhas Mary, Grace, Carrie e Laura. Esta última era a heroína: Laura! Eu nunca havia ouvido um nome mais bonito, mais sonoro. Laura não era tão virtuosa e abnegada quanto sua irmã Mary, era mais aventureira e travessa mas sempre com o coração bondoso. Parece que acertei em guardar esse nome no fundo das minhas lembranças mais queridas. Mais de trinta anos depois, foi o nome que escolhi para minha filha, a minha travessa e aventureira Laurinha, às vezes tão brava e selvagem quanto o cavalo na capa do livro, às vezes tão doce e frágil quanto à garotinha assustada agarrando-se à crina ao vento.

Nos dias de hoje, com filmes tão modernos, efeitos especiais, Harry Potters e vampiros, parece uma tolice falar de sentimentos nobres, menininhas educadas e vidas de sacrifício e determinação. Hoje, ser vilão é muito mais charmoso e interessantes e os heróis de antigamente são os manés. Mas ainda vale a pena tentar se lembrar de que o ser humano já conseguiu ser muito mais feliz apenas brincando na relva, sentindo o vento no rosto, sem computadores e games, sem facebooks e roupas de grife. Feliz apenas por ser bom para a pessoa ao seu lado e por poder afundar seus pés na terra.