Eu quero aprender a ler.

Eu tinha seis anos e uma única ambição: aprender a ler. Depois das histórias dos três cabritinhos e da onça Gabola, meus olhos ganharam o mundo e não parei mais, se tornou minha paixão, meu vício. E o melhor é que todos os dias, aprendo a ler. Há sempre a surpresa incrível de reler um livro que você já conhecia há anos e descobrir um texto totalmente novo, porque o livro muda quando você já não é mais o mesmo.







quinta-feira, 23 de junho de 2011

Mergulhando na Lagoa Prateada

No tempo em que eu tinha seis anos, as crianças da minha idade não sabiam ler, era considerado cedo demais para se ensinar. Mas aprender a ler era meu maior desejo. Às vezes, enquanto eu brincava, ouvia um sussurrar gostoso de palavras, arrulhando como assas de pássaros. Era minha irmã mais velha lendo no quarto. Ela tinha essa mania de ler pronunciando as palavras baixinho, como fazendo uma música do texto. Aquilo me fascinava. O que havia ali naquelas páginas para causar tanto prazer à minha irmã que fazia com que ela ficasse sentada por horas com o livro no colo, sussurrando o texto para si mesma? Eu queria mergulhar naquele mundo mágico também.

Um dia, de tanto insistir, ela começou a ler seu livro para mim. Era um volume da coleção de histórias da vida de Laura Ingalls, escrita pela própria, uma mulher que viveu no tempo da conquista do Oeste dos Estados Unidos. O livro chamava-se Às Margens da Lagoa Prateada. Na capa, uma menina de vestido vermelho montava um cavalo sem sela, agarrando-se desesperadamente às suas crinas enquanto o animal parecia estar em disparada pela campina. Ao fundo, outra menina, as mãos na cintura, parecia se divertir com a aventura. Eu olhava fixamente para a capa enquanto minha irmã ia descortinando a história daquela família pobre mas muito unida e cheia de sentimentos nobres que vivia a dura vida de uma época distante. O pai e a mãe eram muito amorosos e sua docilidade parecia passar naturalmente para as filhas Mary, Grace, Carrie e Laura. Esta última era a heroína: Laura! Eu nunca havia ouvido um nome mais bonito, mais sonoro. Laura não era tão virtuosa e abnegada quanto sua irmã Mary, era mais aventureira e travessa mas sempre com o coração bondoso. Parece que acertei em guardar esse nome no fundo das minhas lembranças mais queridas. Mais de trinta anos depois, foi o nome que escolhi para minha filha, a minha travessa e aventureira Laurinha, às vezes tão brava e selvagem quanto o cavalo na capa do livro, às vezes tão doce e frágil quanto à garotinha assustada agarrando-se à crina ao vento.

Nos dias de hoje, com filmes tão modernos, efeitos especiais, Harry Potters e vampiros, parece uma tolice falar de sentimentos nobres, menininhas educadas e vidas de sacrifício e determinação. Hoje, ser vilão é muito mais charmoso e interessantes e os heróis de antigamente são os manés. Mas ainda vale a pena tentar se lembrar de que o ser humano já conseguiu ser muito mais feliz apenas brincando na relva, sentindo o vento no rosto, sem computadores e games, sem facebooks e roupas de grife. Feliz apenas por ser bom para a pessoa ao seu lado e por poder afundar seus pés na terra.

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