Eu quero aprender a ler.

Eu tinha seis anos e uma única ambição: aprender a ler. Depois das histórias dos três cabritinhos e da onça Gabola, meus olhos ganharam o mundo e não parei mais, se tornou minha paixão, meu vício. E o melhor é que todos os dias, aprendo a ler. Há sempre a surpresa incrível de reler um livro que você já conhecia há anos e descobrir um texto totalmente novo, porque o livro muda quando você já não é mais o mesmo.







sexta-feira, 8 de março de 2019

O PREDADOR by Tess Gerristesen

Tess Gerristesen foi comparada a Robin Cook porque, como ele, ela também é uma médica que se tornou romancista de suspense. Chega a ser mesmo surpreendente, alguém ter uma carreira tão grandiosa como a medicina, que exige anos de estudo e mais a residência, enfim, uma carreira que mais se parece com um chamado do destino; e mesmo assim, receber um outro chamado: o da escrita. Parece excesso de talento para uma só alma, mas enfim, é o que aconteceu com Gerristesen.
Tornei-me fã da série de suspense policial que possui uma característica raríssima: os personagens principais são uma dupla de mulheres! Sim, no mundo ainda primordialmente masculino das delegacias e afins, a detetive Jane Rizzoli torna-se companheira da médica legista doutora Maura Isles. Os livros deram origem ao infame seriado de TV Rizzoli & Isles, mas tente não assistir, ao invés disso, leia os livros.
O primeiro que li foi O CIRURGIÃO, primoroso no quesito suspense, mas Jane Rizzoli ainda aparecia com outro parceiro homem. Depois, li A ÚLTIMA VÍTIMA, onde Maura já aparecia, mas percebi que estava fora de ordem cronológica, pois a dupla já se conhecia de um livro anterior que eu não havia lido, e se estranhavam um pouco. Em O CLUBE MEFISTO a parceria já está firmada mas novamente incomoda a falta de sequência dos lançamentos da série no Brasil.
Cheguei então ao quarto livro: O PREDADOR, que achei um título excelente e, pela primeira vez, melhor que o título original, DIE AGAIN.
Misturada à trama policial, que ocorre no presente, vai sendo contada a história de um safari pago por um grupo de riquinhos metidos a besta que querem vivenciar a “África de verdade”. Eles são guiados por um homem que, apesar da origem europeia, viveu na África do Sul e se movimenta como um felino e age de forma misteriosa. A cada noite, morre um dos participantes do safari, criando um clima de pânico e desconfiança entre eles.
Esses acontecimentos têm relação com os crime que ocorrem no presente, onde um felino do zoológico estraçalha uma cuidadora e o homem que iria empalhar um tigre raro, também do mesmo zoo, é morto da mesma forma que os animais que ele se gabava de caçar: pendurado pelos pés e tendo o ventre aberto de fora a fora para deixar o sangue escorrer.
Um clima de caçada faz com que o leitor devore página por página, e a abrutalhada Jane Rizzoli e sua fria colega Maura Isles precisam usar toda inteligência para descobrir o assassino.

Como em todos os livros da série de Gerristesen, as vítimas e assassinos não são mero pano de fundo, têm participação ativa e, muitas vezes, definitiva no desenlace final. Aqui acontece o mesmo e, no fim, presa e predador se enfrentam mais uma vez. Ótima diversão e uma saudável forma de exercitar sua mente em juntar pistas pelo caminho. 
Saio de férias em dois dias e levo na mala mais dois volumes da série para me divertir: O PECADOR e DUBLÊ DE CORPO. Vai rolar muito sangue na areia da minha praia, rsrsrs.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Instrumentos da Noite - Thomas H. Cook

Uma vez, o dono de um sebo me disse que eu um dia não iria mais gostar do gênero assassinato/mistério/detetive porque a fórmula se esgota e eu começaria a descobrir o assassino muito antes da hora, ou me depararia com clichês demais nas formas de interrogatórios, de mortes sangrentas e das deduções brilhantes do investigador.
Bom, temi que isso estivesse acontecendo comigo em Instrumentos da Noite, pois descobri o maior dos mistérios do livro, que só é desvendado nas páginas finais, muito antes de ter chegado na metade do volume. Mesmo assim, a tensão das páginas finais foram tão intensas que eu tinha que forçar meus olhos para não pularem palavras e alcançarem os mistérios ainda encobertos. Deu para aumentar o batimento cardíaco sim.

Mas essa nem é a melhor razão para se ler Instrumentos da Noite. O melhor é a metalinguagem, velha conhecida do pessoal da área de humanas. O livro que fala de si mesmo; o escritor que fala da sua escrita, como é imaginativa, como é imperativa, como é quase uma escravidão da qual ele não pode fugir e da qual está farto, mas ela o impulsiona. Ele a cumpre.

E ele se relaciona com seus personagens, pensa em seus defeitos e virtudes como inerentes à eles e não como dons imaginários com os quais ele mesmo os contemplou. O assassino é cruel porque o escritor o definiu assim. O detetive incansável é bom pelo mesmo motivo. Mas, para Paul Graves, o escritor personagem principal do livro, os personagens que ele criou estão vivos e soltos em sua mente como se fossem reais. Será que são?

O escritor é chamado a Riverwood, uma propriedade no campo, para "imaginar" uma solução para um crime real cometido há 50 anos, a fim de dar paz à mãe da adolescente assassinada. Mas, de repente Graves percebe que não pode contar apenas com sua imaginação, como constrói seus livros, porque os "fatos" são reais. Ele deve desvendar o assassinato ou inventar uma história como seus livros? Serão as histórias de seus livros também meramente "inventadas"? Tem umas partes meio pantanosas no meio, que você atravessa com dificuldade. Mas vale a penas demais.


quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Tempo Fechado

Conheci Ken Follet, como a maioria das pessoas, quando li a Trilogia O Século. É leitura obrigatória para qualquer leitor de respeito e muita gente já fez mil resenhas sobre a incrível experiência de cobrir o século XX com suas três grandes guerras (as duas mundiais e a guerra fria). É um delírio acompanhar a saga de diversas famílias em diversos países ao longo do século, a evolução de costumes, valores, ideais e a persistente crueldade do ser humano, a única que permanece quase sem alterações.

Depois, descobri uma faceta diferente em Follet ao ler Noite sobre as Águas, um delicioso livro com uma pitada de Ágatha Christie, no qual a ação se desenvolve no famoso hidroavião Clipper da Pan American que levava os fugitivos ricos da segunda guerra mundial em sua escapada de Hitler.


Em Tempo Fechado, uma trama mais atualizada tem um leve toque de Dan Brown (leve mesmo, Follet é muito melhor). Um grupo terrorista rouba um vírus mais letal que o Ebola e na fuga aterroriza uma família presa em sua bela casa num bosque da Escócia, sitiada por uma nevasca. A ação mais importante se desenvolve quase toda em uma noite e um dia e foi o tempo que eu levei também para devorar as 376 páginas. Excelente para dias de chuva. Prepare a pipoca e divirta-se.