Eu quero aprender a ler.

Eu tinha seis anos e uma única ambição: aprender a ler. Depois das histórias dos três cabritinhos e da onça Gabola, meus olhos ganharam o mundo e não parei mais, se tornou minha paixão, meu vício. E o melhor é que todos os dias, aprendo a ler. Há sempre a surpresa incrível de reler um livro que você já conhecia há anos e descobrir um texto totalmente novo, porque o livro muda quando você já não é mais o mesmo.







quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Instrumentos da Noite - Thomas H. Cook

Uma vez, o dono de um sebo me disse que eu um dia não iria mais gostar do gênero assassinato/mistério/detetive porque a fórmula se esgota e eu começaria a descobrir o assassino muito antes da hora, ou me depararia com clichês demais nas formas de interrogatórios, de mortes sangrentas e das deduções brilhantes do investigador.
Bom, temi que isso estivesse acontecendo comigo em Instrumentos da Noite, pois descobri o maior dos mistérios do livro, que só é desvendado nas páginas finais, muito antes de ter chegado na metade do volume. Mesmo assim, a tensão das páginas finais foram tão intensas que eu tinha que forçar meus olhos para não pularem palavras e alcançarem os mistérios ainda encobertos. Deu para aumentar o batimento cardíaco sim.

Mas essa nem é a melhor razão para se ler Instrumentos da Noite. O melhor é a metalinguagem, velha conhecida do pessoal da área de humanas. O livro que fala de si mesmo; o escritor que fala da sua escrita, como é imaginativa, como é imperativa, como é quase uma escravidão da qual ele não pode fugir e da qual está farto, mas ela o impulsiona. Ele a cumpre.

E ele se relaciona com seus personagens, pensa em seus defeitos e virtudes como inerentes à eles e não como dons imaginários com os quais ele mesmo os contemplou. O assassino é cruel porque o escritor o definiu assim. O detetive incansável é bom pelo mesmo motivo. Mas, para Paul Graves, o escritor personagem principal do livro, os personagens que ele criou estão vivos e soltos em sua mente como se fossem reais. Será que são?

O escritor é chamado a Riverwood, uma propriedade no campo, para "imaginar" uma solução para um crime real cometido há 50 anos, a fim de dar paz à mãe da adolescente assassinada. Mas, de repente Graves percebe que não pode contar apenas com sua imaginação, como constrói seus livros, porque os "fatos" são reais. Ele deve desvendar o assassinato ou inventar uma história como seus livros? Serão as histórias de seus livros também meramente "inventadas"? Tem umas partes meio pantanosas no meio, que você atravessa com dificuldade. Mas vale a penas demais.


quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Tempo Fechado

Conheci Ken Follet, como a maioria das pessoas, quando li a Trilogia O Século. É leitura obrigatória para qualquer leitor de respeito e muita gente já fez mil resenhas sobre a incrível experiência de cobrir o século XX com suas três grandes guerras (as duas mundiais e a guerra fria). É um delírio acompanhar a saga de diversas famílias em diversos países ao longo do século, a evolução de costumes, valores, ideais e a persistente crueldade do ser humano, a única que permanece quase sem alterações.

Depois, descobri uma faceta diferente em Follet ao ler Noite sobre as Águas, um delicioso livro com uma pitada de Ágatha Christie, no qual a ação se desenvolve no famoso hidroavião Clipper da Pan American que levava os fugitivos ricos da segunda guerra mundial em sua escapada de Hitler.


Em Tempo Fechado, uma trama mais atualizada tem um leve toque de Dan Brown (leve mesmo, Follet é muito melhor). Um grupo terrorista rouba um vírus mais letal que o Ebola e na fuga aterroriza uma família presa em sua bela casa num bosque da Escócia, sitiada por uma nevasca. A ação mais importante se desenvolve quase toda em uma noite e um dia e foi o tempo que eu levei também para devorar as 376 páginas. Excelente para dias de chuva. Prepare a pipoca e divirta-se.