Uma menina louca por livros e que não tinha dinheiro para comprá-los nem biblioteca para retirá-los emprestado. Por isso, cobiçava o livro do próximo. A menina que morava na casa bonita e rica na frente da minha tinha um quartinho nos fundos repleto de livros do chão ao teto! A primeira vez que entrei lá, parecia aquelas crianças da Fantástica Fábrica de Chocolate do Willy Wonka! Queria devorar, degustar, lamber cada um daqueles volumes... Mas minha vizinha me avisava que a mãe era muito rigorosa! Já dava para perceber isso só de entrar na casa, sempre arrumada sem uma poeirinha nos móveis. Na mesinha de centro, um arranjo de bichinhos de cristal, coisa que não se deve ter numa casa com crianças como eu. Por causa de todo o rigor, eu só poderia pedir um livro de cada vez. O problema é que lia tão rápido que o livro logo se acabava mas eu ficava morrendo de vergonha de voltar para pedir outro.
Quando li o conto da Lya Luft, Felicidade Roubada, parecia que ela estava contando a minha história! Eu cobiçava aqueles livros todos que jamais seriam meus. Tantas princesas e príncipes, tantas bruxas e duendes, todos presos nos livros... E eu do lado de fora, louca para levá-los para casa e nunca mais devolvê-los!
Foi assim que conheci Alice. Já havia lido versões infantis resumidas e ilustradas da sua história, mas quando peguei pela primeira vez aquele livro de capa de couro azul escuro, páginas grossas e repleto de ilustrações sombrias e fascinantes, senti que iria me apaixonar perdidamente. Assim foi. Alice no País das Maravilhas se tornou o primeiro livro que li mais de uma vez. Aliás, lí várias vezes, admiriando cada ilustração, relendo cada trecho preferido. Eu queria ser Alice, vivendo uma história fantástica, fazendo suas observações afiadas, encontrando aqueles personagens inesquecíveis. Depois, veio Alice no País do Espelho. Não amei tanto quanto o primeiro, mas era deliciosa a sensação de reencontrar Alice, poder tê-la ao meu lado mais uma vez. Também o reli a exaustão. Na verdade, exaustos ficaram os pais da menina de tanto ter que abrir a porta para mim e emprestar de novo o mesmo livro.
Décadas depois, já com minha filha andando ao meu lado, fui à Bienal do Livro na ExpoMinas e adivinha só quem estava lá me esperando? Ela mesma: Alice! A capa agora era amarela mas as ilustrações eram iguaizinhas à edição que conheci na infância. Mas agora, eu podia levar Alice comigo para casa. Comprei o livro com uma sensação de felicidade finalmente não roubada. Felicidade legítima. Era meu! Agora, espero pelo dia em que Laura esteja grandinha o suficiente para lermos juntas.
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